
Preciso começar este texto, com uma volta no tempo, há aproximadamente 1 ano atrás, quando me preparava para a minha primeira Volta da Pampulha. Nesta época, começava a participar de competições de corrida, e seria minha mais longa até então. Nesta época, perguntei a um grande amigo do trabalho, que é corredor de longa data,o Fredinho, qual seria uma boa estratégia para enfrentar a corrida. Ele me disse que costumava dividir a prova em 3 partes de 6km onde na primeira o jeito seria tentar acelerar para fugir da multidão, na segunda segurar em um bom ritmo e na terceira, dependendo das condicoes do corredor, seria dar tudo e bater um record, ou dar tudo para terminar a prova fosse como fosse. Trago comigo este ensinamento para todas as provas de média distancia que corri neste ultimo ano (3 meias maratonas e 1 dez milhas). Isto ajuda a motivar nos momentos mais difíceis e também com as estratégias para hidratar e tomar gel, comer etc. Preciso ainda comentar que este, para mim, foi uma ano fabuloso nas corridas. Iniciei neste esporte praticamente no ano passado, mas neste ano procurei um técnico, o Marcelinho do Clube Formula de Corrida, que sempre tem me apoiado alem de ser impecável nos treinamentos que me passa. Nesta corrida de hoje tive consciência de o quanto cresci como corredora seguindo os treinamentos e posso afirmar que não sou a mesma de um ano atrás, e honestamente, me sinto não apenas uma corredora melhor, mas também uma pessoa melhor.
Neste ultimo ano de corrida, corri muitas provas, mas principalmente conheci muitas pessoas especiais, que me trouxeram coisas boas para a corrida e para a vida, mesmo com um contato pequeno, mas com grandes lições.
Voltando ao tema desta Volta da Pampulha, esta prova para mim tornou-se especial, primeiro, por ter sido a minha estréia no mundo além dos 10km ainda no ano passado. E a segunda razão, é por ser uma prova emblemática para a Cidade de Belo Horizonte, onde moro já tem 3 anos e foi uma cidade que me acolheu de um jeito especial e que aprendi a amar como minha terra.
Isto tudo para explicar que esta Volta da Pampulha, para mim, carregou o significado de todo um ano de corridas, e hoje, durante a prova, me dei conta do tanto que esta corrida me é especial. Hoje, como já disse, sou outra corredora, e neste domingo de manhã, entendi de uma maneira diferente os ensinamentos que meu amigo corredor Fredinho me passou para minha primeira na Volta da Pampulha há um ano atrás. Aprendi com o dia a dia, com cada treino, cada corrida e com as lições que tantas pessoas deixaram marcadas na minha vida. Posso descrever minha corrida hoje em três fases, que refletem este ultimo ano de treinamentos.
Fase 1: Correndo com a cabeça - A gente sempre precisa acertar umas últimas coisas antes do dia da corrida, fazer o último treino da planilha, no meu caso, um trote na sexta feira pela manha. A gente sempre precisa quebrar um pouco as regras e relaxar, por isso no sabado, mesmo com a chuva fui com meu queridíssimo amigo Fabio, para pedalar, trilhazinha curta e enlameada, mas conversamos, relaxamos e lavamos a alma. Claro, sempre pagamos um preço por quebrar as regras (o crime não compensa rs), a noite, por causa da chuva tive uma febrinha quando me preparava para confraternizar no jantar do twitters run, não fui, achei melhor descansar em casa, afinal 18 não são 10, melhor prevenir. No domingo, cedinho saímos para a corrida eu mais um casal de amigos. Saindo de casa, no trajeto para a Pampulha aquele clima de tensão pre prova tão conhecido por todos. Chegando, logo fomos para a largada e o panorama era desde ontem de chuva, muita chuva. E assim soaram as buzinas (fuooooooo) e as 9:15 largamos, água de cima da chuva, água debaixo das grandes poças. E seguimos assim, eu e mais 12.500 pessoas nesta situação. Primeiro km 5'45", lento, engarrafado, mas o jeito e manter a tranqüilidade e acelerar aos poucos. Logo cheguei ao meu primeiro terço de prova: Quilômetro 6, completamente molhada, pernas inteiras, alma lavada. Providência, no próximo posto de água tomar o primeiro gel e acelerar.
Fase 2: Correndo com as pernas - Por volta do km 9, me dei conta que já se passava metade da prova (na verdade um pouco mais), mas a segunda metade sempre exige mais, o combustível aos poucos se esgota, a musculatura começa a reclamar. Me lembrei do ano passado, de o quanto foi emocionante e como fui ousada, não tinha medo de quebrar, apenas corri. Lembrei deste ultimo ano onde tive uma base melhor, estava melhor preparada, não, as pernas não me deixariam na mão.
Acelera Ligia, sem medo, faltam menos de 9km. Fui revezando com um senhor mais velho, que ora me passava, ora eu o passava. Estava feliz por estar ali, no meio daquela multidão de corredores. Olhei para o outro lado da lagoa e percebi aquele tanto de gente correndo em todo o entorno dos 18km da Lagoa da Pampulha. Me ocorreu a imagem da lagoa sendo abraçada por esta multidão corredora. Não adianta, reclamamos o ano todo que só temos prova na orla da Pampulha, mas penso no quanto melhorei como corredora em cada uma dessas provas, e no quanto a lagoa se tornou um lugar especial para mim por esta razão.
Fase 3: Correndo com o coração - Avisto o km 12, as pernas já reclamam, mais um posto de água, mais um gel, o ultimo gel, o ultimo terço da prova. Penso nos amigos que fiz, no meu treinador. A chuva já levou as coisas ruins e agora meu coração só leva as coisas boas. Sinto que estou leve,lembro do meu chefe (também corredor, mas que não pode correr hoje pois esta lesionado), ele me disse: "menina, você esta no jeito, vai voar domingo na corrida." Lembro dos amigos corredores que gostariam de estar ali, mas por uma razão ou outra não puderam correr. Penso comigo, estou bem, e hora de esquecer as pernas, parar de olhar no relógio e correr com o coração. Olhei para frente e para os lados, me concentrei na energia boa de cada um dos que estavam ali, na energia boa das pessoas que gostam de mim, meus amigos, minha família. E segui meu ultimo e mais leve terço da corrida voando com o coração. Por que quando corremos mesmo com o coração, estamos tão leves que voamos.
Lá pelo meio do km 17 avisto um amigo de corridas e pedaladas, o Zé. Gritei corre Zé, e segui em frente. Km 17, últimos minutos de prova, agradeço a Deus por este dia, por este ano de corridas. De repente Zé passa por mim e me chama para um peguinha nos metros finais. Cruzamos juntos o pórtico de chegada. E mais uma Volta da Pampulha concluída em 1h 34min 16 seg de pura felicidade, para fechar bem este ano tão especial para mim nas corridas. Um ano de treinos e aprendizados e o ano onde correr com o coração deixou de ser apenas uma expressão e passou a fazer muito sentido.